Sondagem SPT é a investigação do subsolo em que um amostrador padrão é cravado no terreno a cada metro por golpes de um martelo, contando quantos golpes são necessários para avançar. O resultado é um boletim com o perfil das camadas de solo, o índice de resistência à penetração (NSPT) de cada metro e a posição do nível d'água. É o ensaio de campo mais usado no Brasil para embasar o projeto de fundações, e é executado conforme a ABNT NBR 6484:2020.
O que é o ensaio SPT
SPT vem de Standard Penetration Test, o ensaio de penetração padrão. Na obra, ele também aparece como sondagem a percussão ou sondagem de simples reconhecimento. O serviço entrega três informações ao projetista:
O que tem embaixo do terreno: a sequência de camadas (argila, silte, areia, aterro, solo residual) e a espessura de cada uma, a partir das amostras retiradas.
Quanto cada camada resiste à penetração: o NSPT, metro a metro.
Onde está a água: a profundidade do nível d'água encontrado no furo.
A sondagem não dimensiona nada: é dado de entrada. Tipo de fundação, cota de apoio e carga admissível são decisões do engenheiro responsável pelo projeto de fundações, com ART própria. A escolha entre sapata, radier, estaca e tubulão fica para outro texto.
Quando a investigação geotécnica é necessária
A resposta curta: antes de projetar a fundação de qualquer edificação. A ABNT NBR 6122:2022 (Projeto e execução de fundações) trata a investigação geotécnica como parte do projeto, e o SPT é o ponto de partida mais comum em obras de casas, sobrados, galpões e prédios.
Na prática do escritório, a sondagem costuma entrar nestas situações:
Construção nova, de casa térrea a edifício, ainda na fase de estudo ou de projeto básico.
Ampliação ou novo pavimento sobre edificação existente, quando a carga na fundação muda.
Terreno com histórico desconhecido: aterro antigo, área de várzea, encosta, lote vizinho a córrego.
Patologias em fundação (recalques, fissuras inclinadas em paredes), em que a sondagem ajuda a entender o solo antes de propor reforço.
Muro de arrimo, contenção e escavação de subsolo, em que o perfil e a água definem o método de execução.
Pular a sondagem em obra pequena é uma aposta: o ensaio custa pouco perto de uma fundação superdimensionada por falta de dados ou de um recalque depois da entrega. Antes de qualquer escavação perto de vizinhos, vale também registrar o estado dos imóveis ao lado com um laudo de vistoria cautelar.
Como a sondagem SPT é feita (NBR 6484)
A ABNT NBR 6484:2020 (Solo: sondagem de simples reconhecimento com SPT, método de ensaio) define o equipamento, a sequência de execução, os critérios de parada e o conteúdo do relatório. A edição de 2020 substituiu a de 2001. Em linhas gerais, o serviço segue esta ordem:
Locação dos furos. Os pontos são marcados no terreno conforme a planta de locação recebida do projetista, com a cota da boca de cada furo referida a um nível conhecido.
Perfuração inicial. O primeiro trecho é aberto com trado, e o material é coletado para descrição.
Ensaio de penetração a cada metro. O amostrador padrão é cravado pela queda livre de um martelo de 65 kg de uma altura de 75 cm. A cravação total é de 45 cm, contada em três segmentos de 15 cm. O NSPT é a soma dos golpes dos dois últimos segmentos, ou seja, dos 30 cm finais.
Avanço entre ensaios. Com trado helicoidal acima do nível d'água e, quando o trado não avança mais, por circulação de água (lavagem), com tubo de revestimento quando o furo precisa ser protegido.
Coleta e descrição das amostras. O solo que sai no amostrador é guardado, identificado pela profundidade e descrito por textura, cor e origem provável.
Nível d'água. O sondador registra quando encontra água e faz leituras posteriores, porque o nível pode subir depois que o furo estabiliza.
Paralisação. O furo para pelo critério da norma (alta resistência repetida, impenetrável ao processo de lavagem) ou pela profundidade programada pelo projetista, o que exigir mais.
Duas normas complementam o ensaio: a ABNT NBR 16796:2020 trata da medição da energia transmitida às hastes, útil quando o projeto precisa comparar resultados de equipamentos diferentes, e a ABNT NBR 6502:2022 (Solos e rochas: terminologia) dá os termos usados na descrição das camadas.
A empresa de sondagem registra ART do serviço, e o boletim sai assinado pelo responsável técnico dela.
Quantos furos de sondagem fazer
A referência para programar a quantidade e a profundidade dos furos é a ABNT NBR 8036 (Programação de sondagens de simples reconhecimento dos solos para fundações de edifícios). Ela relaciona o número mínimo de furos à área de projeção do edifício em planta, fixa um mínimo absoluto mesmo para obras pequenas e orienta a distribuição dos pontos e o critério de profundidade.
Alguns pontos que valem para qualquer programação:
Mínimo de norma é piso. Terreno com desnível, aterro em parte do lote ou rocha aparente pede mais pontos.
Furos não alinhados. Pontos distribuídos pela área permitem montar perfis em mais de uma direção. Três ou mais furos fora de uma mesma linha mostram se as camadas são inclinadas.
Furos onde a carga está. Pilares mais carregados e núcleo de escada e elevador merecem um ponto próximo.
Profundidade programada por quem projeta. Contratar "sondagem até 10 m" sem saber a carga da edificação pode encerrar o furo antes da camada que interessa. O critério de profundidade é do projetista de fundações, não da empresa de sondagem.
Antes de contratar, peça ao engenheiro de fundações a planta de locação com a quantidade e a profundidade mínima de cada furo. Sondagem bem programada custa menos do que uma segunda mobilização.
Como ler o boletim de sondagem
O boletim é uma folha por furo, com a profundidade numa coluna e, ao lado, o que foi encontrado em cada metro. Leia do cabeçalho ao rodapé, não só o gráfico de golpes.
| Campo do boletim | O que conferir | Sinal de atenção |
|---|---|---|
| Cabeçalho | Obra, número do furo, data, cota da boca do furo, coordenadas ou locação | Furo sem cota ou sem referência na planta de locação |
| Golpes por segmento | Golpes em cada um dos três trechos de 15 cm | Penetração diferente de 15 cm anotada como fração (ex.: 30/10) |
| NSPT | Valor de cada metro, em número e no gráfico | Queda brusca de NSPT em profundidade, indicando camada mole abaixo de camada resistente |
| Descrição do solo | Tipo, cor, consistência ou compacidade, origem (aterro, sedimentar, residual) | "Aterro" sem espessura definida ou com entulho |
| Nível d'água | Profundidade inicial e leitura posterior, com data | Nível não informado, ou "não encontrado" sem dizer até onde o furo foi |
| Critério de parada | Motivo do encerramento e profundidade final | Furo encerrado por limite contratual, não por critério técnico |
| Responsável | Nome, registro no CREA e ART da empresa | Boletim sem assinatura ou sem identificação profissional |
NSPT
O NSPT é o número que mais chama atenção, e também o mais mal interpretado. Ele indica a resistência à penetração do amostrador naquele metro, não a capacidade de carga do solo. A partir dele, o boletim classifica a consistência das argilas e a compacidade das areias, segundo os critérios da própria NBR 6484. A transformação do NSPT em parâmetro de projeto depende de correlações, do tipo de fundação e do julgamento do projetista, e não deve ser feita "de cabeça" a partir de uma regra de bolso.
Leia o NSPT ao longo da profundidade: importa a tendência, uma camada resistente fina sobre uma mole, ou valores que oscilam muito entre furos vizinhos.
Nível d'água
O nível d'água influencia a escavação, o tipo de fundação viável e a necessidade de rebaixamento ou impermeabilização de subsolo. Olhe a data da leitura: um furo feito no fim da estiagem pode mostrar água bem mais baixa do que o nível que aparece na estação chuvosa. Se o boletim diz "nível d'água não encontrado", procure até que profundidade o furo foi.
Perfil do solo
Com dois ou mais boletins, monta-se o perfil geotécnico: um corte do terreno ligando os furos, com as camadas interpoladas. Ele mostra o que um boletim isolado não mostra, como uma camada que afina de um lado do lote. Se o relatório não trouxer o perfil, peça.
Outros ensaios: CPT, trado e sondagem mista
O SPT resolve a maior parte das obras correntes, mas não é o único ensaio. A tabela compara as alternativas mais comuns, sem ordem de preferência; quem escolhe é o projetista, conforme a obra e o solo.
| Ensaio | Como funciona | Quando costuma ser indicado | Limitação |
|---|---|---|---|
| SPT (ABNT NBR 6484:2020) | Cravação dinâmica do amostrador, com contagem de golpes e coleta de amostras | Edificações correntes, primeira investigação do terreno | Resultado sensível à energia do equipamento e à execução |
| CPT e CPTu (cone e piezocone) | Cravação contínua e estática de uma ponteira com medição de resistência de ponta e atrito lateral; o CPTu mede também a poropressão | Argilas moles, obras maiores, aterros sobre solo compressível | Não retira amostra; não atravessa camadas muito resistentes ou pedregulhos |
| Sondagem a trado (ABNT NBR 9603) | Perfuração manual com trado, com coleta de amostra deformada | Investigação rasa, pavimentos, coleta de material para ensaio | Não mede resistência; para no nível d'água ou em solo muito resistente |
| Sondagem mista (percussão e rotativa) | SPT nas camadas de solo e perfuração rotativa com coroa quando encontra rocha ou matacão | Terrenos com rocha a pouca profundidade ou blocos de rocha | Mais cara e mais demorada |
Em obras maiores, é comum combinar SPT, CPTu e ensaios de laboratório. A decisão é do projeto.
Quanto custa sondagem SPT
Não há preço de referência oficial nacional que sirva para qualquer obra, por isso este texto não traz valor. O preço varia com a região, o acesso, a quantidade de furos e a profundidade, e a proposta costuma separar estes itens:
Mobilização e desmobilização da equipe e do equipamento, às vezes com valor por distância.
Metro perfurado, multiplicado pela soma das profundidades dos furos.
Furos ou metros adicionais, quando o critério de parada pede ir além do programado.
ART do serviço e relatório com boletins, planta de locação e perfil.
Para comparar propostas, peça a mesma programação (quantidade de furos e profundidade mínima) a todas as empresas e verifique se o relatório inclui perfil geotécnico e leitura posterior do nível d'água. Três cotações com o mesmo escopo resolvem a maioria dos casos. Para situar o peso da sondagem no custo total, a ferramenta de custo da construção por m² por estado dá a ordem de grandeza da obra.
Como organizar a sondagem dentro do projeto
Proposta, ART da empresa, planta de locação, boletins e perfil serão consultados por anos; se a fundação for questionada, é o primeiro conjunto que alguém vai pedir. Acompanhar o dia do ensaio (locação dos furos, fotos, anotações) ajuda a responder dúvidas sobre o boletim, do mesmo jeito que um relatório de visita técnica organiza o que foi constatado em campo.
No Cursivo, o dia da sondagem pode ser registrado como uma visita do projeto, com data, clima, anotações, pendências e fotos dos furos, e o relatório da empresa fica nos arquivos do mesmo projeto, ao lado da ART e do projeto de fundações. Quando a obra começa, a escavação e a execução das fundações entram no diário de obra, e quem abre o projeto encontra a história do terreno desde o primeiro furo.
Perguntas frequentes
Sondagem SPT é obrigatória para casa térrea?
A ABNT NBR 6122:2022 trata a investigação geotécnica como parte do projeto de fundações de qualquer edificação. Algumas prefeituras e agentes financiadores também pedem o relatório de sondagem. Confirme a exigência local e, mesmo sem exigência, considere o custo da sondagem perto do risco de uma fundação mal escolhida.
Quanto tempo leva uma sondagem SPT?
Depende da quantidade de furos, da profundidade e do solo. Peça na proposta o prazo de campo e o prazo do relatório separados, porque o relatório só sai depois da descrição das amostras.
O que significa NSPT alto ou baixo?
NSPT alto indica que o amostrador precisou de muitos golpes para avançar, o que sugere solo mais resistente naquele metro; NSPT baixo indica solo mole ou fofo. A classificação de consistência e compacidade segue a NBR 6484, e o uso do valor no projeto depende do projetista de fundações.
Posso usar a sondagem do terreno vizinho?
Ela ajuda como informação preliminar, mas não substitui a investigação do seu terreno. O solo pode mudar em poucos metros, sobretudo em áreas de aterro, várzea ou encosta, e a responsabilidade pelo projeto exige dados do local da obra.
Quem pode contratar e assinar a sondagem?
O serviço é executado por empresa ou profissional habilitado, com ART registrada no CREA. Quem programa os furos e usa o resultado é o engenheiro responsável pelo projeto de fundações, que também registra a sua ART.
Antes de contratar a próxima sondagem
Peça a planta de locação e a profundidade mínima ao projetista, compare propostas com o mesmo escopo, acompanhe o dia de campo e leia o boletim inteiro, do cabeçalho ao critério de parada. E guarde tudo junto: proposta, ART, boletins e projeto de fundações no mesmo lugar, com as fotos do campo. Para organizar visitas, documentos e cronograma de cada obra num só projeto, solicite seu convite.




