Fck do concreto é a resistência característica à compressão, em MPa, que o projeto estrutural adota para o concreto, medida em corpos de prova aos 28 dias de idade. "Característica" quer dizer que no máximo 5% dos resultados podem ficar abaixo desse valor: um concreto de fck 25 MPa tem 95% de probabilidade de resistir a pelo menos 25 MPa. O fck vem do projeto, que considera as cargas e a classe de agressividade ambiental do local, e é ele que vai no pedido à concreteira.

O que significa fck, letra por letra

Na notação das normas de concreto, f é resistência, c é concreto e k é característica. Pelo mesmo raciocínio, fyk é a resistência característica de escoamento do aço, e fcd é a de cálculo do concreto, já reduzida pelos coeficientes de segurança.

Três ideias estão embutidas nesse número:

  1. É compressão. O concreto resiste bem à compressão e mal à tração, que fica por conta do aço no concreto armado.

  2. É estatística. Nenhuma betonada é igual à outra. A norma trata a resistência como uma distribuição de resultados, e o fck é o quantil de 5% dessa distribuição, não a média.

  3. Tem idade. Salvo indicação diferente no projeto, o fck se refere a 28 dias, a referência comum entre projeto, concreteira e laboratório.

O ensaio que dá esse número é a ruptura de corpos de prova cilíndricos em prensa. A moldagem e a cura dos corpos de prova seguem a ABNT NBR 5738, e o ensaio de compressão, a ABNT NBR 5739. Controle tecnológico, amostragem e aceitação do lote vão ter um artigo próprio aqui no blog.

Fck em MPa e em kgf/cm²: a conversão que ainda aparece na obra

O fck é dado em megapascal (MPa), unidade do Sistema Internacional. Um MPa equivale a um newton por milímetro quadrado, ou cerca de 10,2 kgf/cm². Na prática da obra, ainda se ouve "concreto 250" ou "concreto 300": é a resistência em kgf/cm², herança de projetos antigos. "Concreto 250" corresponde a aproximadamente 25 MPa.

Pela mesma conta, C30 fica perto de 306 kgf/cm². A conversão serve para conversar com mestre de obras e ler projeto antigo; no pedido e no projeto novo, use a classe em MPa.

Classes de resistência do concreto (NBR 8953)

A ABNT NBR 8953:2015, Concreto para fins estruturais: classificação pela massa específica, por grupos de resistência e consistência, organiza o concreto em classes nomeadas pela letra C seguida do fck em MPa. C30, por exemplo, é o concreto com fck de 30 MPa.

As classes se dividem em dois grupos de resistência:

  • Grupo I: de C20 a C50, em degraus de 5 MPa. É onde está a grande maioria das obras residenciais e comerciais.

  • Grupo II: de C55 a C100. São os concretos de alta resistência, usados em pilares de edifícios altos, peças pré-fabricadas e protendidas e obras especiais.

Abaixo de C20 existem as classes C10 e C15, que as normas não admitem como concreto estrutural. Elas aparecem em lastro, regularização e enchimento, onde o concreto não tem função de estrutura.

A divisão em grupos não é só de nome. O comportamento do concreto muda com a resistência (módulo de elasticidade, deformação na ruptura, fragilidade), e a ABNT NBR 6118:2023, Projeto de estruturas de concreto, trata os dois grupos com parâmetros de cálculo diferentes. Para quem acompanha a obra, basta saber que trocar a classe muda as premissas do projeto.

A mesma NBR 8953 também classifica o concreto pela consistência no estado fresco, medida pelo abatimento do tronco de cone (o slump). Essa classificação é a que aparece no pedido como "S100", por exemplo, e terá um artigo próprio sobre slump e controle no recebimento.

Classe de agressividade ambiental e o fck mínimo da NBR 6118

O fck do projeto não depende só das cargas. A NBR 6118 exige que o concreto tenha qualidade compatível com o ambiente em que a estrutura vai ficar, porque a durabilidade depende de quanto o concreto protege a armadura contra a corrosão. Esse ambiente é enquadrado numa classe de agressividade ambiental (CAA), que vai de I a IV.

O raciocínio da norma é este:

  • Classe I (fraca): ambientes rurais ou peças submersas, com risco de deterioração insignificante.

  • Classe II (moderada): ambiente urbano, onde está a maior parte das obras.

  • Classe III (forte): ambiente marinho ou industrial.

  • Classe IV (muito forte): ambientes industriais agressivos e regiões de respingo de maré.

Quanto mais agressivo o ambiente, menos poroso o concreto precisa ser. A NBR 6118 traduz isso numa tabela que fixa, para cada classe de agressividade, uma relação água/cimento máxima e uma classe de concreto mínima, com valores diferentes para concreto armado e protendido. Não vamos reproduzir a tabela aqui (o texto da norma é protegido por direito autoral e está à venda no catálogo da ABNT), mas o princípio é simples: C20 é o piso para concreto armado, e esse mínimo sobe a cada classe de agressividade. Em obra urbana comum, enquadrada na classe II, o mínimo já fica acima do piso, e em orla marítima ou ambiente industrial ele sobe mais.

Na prática, o ambiente pode mandar mais que a carga: uma casa no litoral pode ter cargas que um C20 aguentaria, mas a agressividade obriga a um concreto menos poroso. E o enquadramento é decisão do projetista, que pode adotar classe mais severa para partes da estrutura (reservatório, piscina, garagem). Quem executa não reclassifica o ambiente por conta própria.

A classe de agressividade também define o cobrimento mínimo da armadura, tema que terá um artigo próprio. Por ora, guarde que fck, relação água/cimento e cobrimento andam juntos: os três vêm do mesmo enquadramento no projeto.

Fck 25 ou 30: qual usar?

A resposta curta é: o que estiver no projeto estrutural. A escolha entre C25 e C30 (ou qualquer outra classe) é do engenheiro responsável pelo cálculo, com ART, e depende das cargas, das dimensões das peças, do vão, da classe de agressividade e de decisões de custo do próprio projeto.

O que dá para dizer de forma geral, sem substituir o projeto:

  • C25 é muito comum em residências e pequenos edifícios em área urbana, porque costuma atender ao mínimo da classe II com folga razoável de custo.

  • C30 ou mais aparece quando a classe de agressividade é mais severa, quando o projetista quer reduzir seções de pilares e vigas, ou em edifícios com mais pavimentos.

  • Trocar a classe na obra é decisão do projetista. Subir sem consulta pode alterar retração e fissuração; descer é erro grave, porque a estrutura passa a trabalhar fora do que foi calculado.

Se o projeto não especifica o fck em planta, nas notas gerais ou no memorial, pare e peça. Concretar sem a classe definida no papel é assumir uma responsabilidade que é do projetista, e o artigo sobre responsabilidade na obra entre arquiteto, engenheiro e construtora mostra onde essa linha passa.

Fck x fcj: resistência de projeto e resistência na idade j

Se o fck é a resistência característica aos 28 dias, o fcj é a resistência do concreto na idade de j dias. Os dois conceitos aparecem em momentos diferentes:

TermoO que éOnde aparece
fckResistência característica à compressão aos 28 dias, quantil de 5%Projeto estrutural, pedido à concreteira, aceitação do concreto
fckjResistência característica numa idade j diferente de 28 diasProjetos que verificam etapas antes dos 28 dias (desforma, protensão, carregamento precoce)
fcjResistência à compressão na idade j, como valor de dosagem ou de ensaioDosagem da concreteira, rompimento de corpos de prova a 3, 7 ou 28 dias
fcmResistência média de um conjunto de resultadosEstatística do controle e da dosagem

Na dosagem, a concreteira não mira o fck: mira uma resistência média maior, para que, com a variação natural da produção, 95% dos resultados fiquem acima do fck. A relação clássica é fcj = fck + 1,65 × sd, em que sd é o desvio padrão da produção, e quanto mais controlada a central, menor o desvio. A ABNT NBR 12655:2022, Concreto de cimento Portland: preparo, controle, recebimento e aceitação, define como esse desvio é considerado. Traço e dosagem vão ter artigo próprio.

Na obra, a confusão comum é com o rompimento aos 7 dias. Resultado abaixo do fck nessa idade não reprova o concreto por si só: o fck é referência de 28 dias, e o ganho de resistência varia com o cimento (com escória ou pozolana, tende a ser mais lento no começo). Quem interpreta e decide sobre desforma ou investigação é o engenheiro responsável.

Se o resultado aos 28 dias ficar abaixo do fck, o caminho costuma passar por investigação na estrutura e, às vezes, por um laudo técnico de engenharia.

Como pedir o concreto usinado

O concreto dosado em central, o usinado, segue a ABNT NBR 7212, Concreto dosado em central: preparo, fornecimento e controle. O pedido à concreteira é curto, mas cada item tem consequência. Antes de ligar, tenha em mãos o projeto estrutural com as notas gerais.

Item do pedidoO que informarDe onde vem
Classe de resistênciaO fck do projeto, ex.: C25Projeto estrutural (notas gerais ou memorial)
Abatimento (slump)A consistência adequada ao lançamento, ex.: S100Tipo de peça, bombeamento, densidade de armadura; combine com o projetista e a concreteira
Agregado graúdoBrita 0 ou brita 1, conforme a peçaEspaçamento entre barras e cobrimento previstos no projeto
VolumeMetros cúbicos por caminhão e total da concretagemLevantamento das fôrmas, com perda prevista
LançamentoConvencional (bica) ou bombeado, e tipo de bombaAcesso do caminhão, altura e distância da peça
Aditivos e requisitos especiaisRelação água/cimento máxima, tipo de cimento, aditivos, se o projeto pedirProjeto estrutural e classe de agressividade
ProgramaçãoData, horário de início, intervalo entre caminhõesCronograma da obra e equipe disponível

Alguns cuidados que evitam dor de cabeça:

  • Peça pela classe, não pelo "traço". No usinado você compra desempenho, e a concreteira responde pela dosagem.

  • A brita depende da peça. O tamanho máximo do agregado precisa caber entre as barras e no cobrimento. Brita 1 é usual em vigas, pilares e lajes; brita 0 (pedrisco) aparece em peças delgadas e armaduras densas. Na dúvida, pergunte ao projetista.

  • Verifique a nota fiscal de cada caminhão. Ela traz a classe, o abatimento, o volume e o horário de saída da central. Se a classe da nota não bate com a do projeto, o caminhão não descarrega.

  • Água na obra muda o concreto. Acrescentar água no caminhão para "afinar" aumenta a relação água/cimento e derruba a resistência. Qualquer ajuste de consistência é feito nos termos da norma e com o responsável técnico ciente.

A cura, que começa logo depois do lançamento, terá um artigo próprio.

O registro da concretagem é parte do trabalho

O fck do projeto só vale se der para provar que foi ele que chegou. Notas fiscais, horário de cada descarga, abatimento medido, corpos de prova e a peça que cada caminhão concretou formam o histórico que responde a qualquer pergunta futura.

No Cursivo, cada concretagem pode virar uma visita registrada no projeto, com data, clima, responsável, fotos das notas fiscais e do ensaio de abatimento, vídeos do lançamento e pendências (como o resultado dos corpos de prova a receber), publicada no feed do cliente no mesmo dia. É o mesmo princípio do diário de obra: o registro feito no dia vale mais que a reconstrução semanas depois.

Perguntas frequentes

Qual é o fck mínimo para concreto armado?

Pela NBR 8953 e pela NBR 6118, o concreto estrutural começa em C20, e esse é o piso para concreto armado no ambiente menos agressivo. Em ambiente urbano, marinho ou industrial, a classe de agressividade eleva o mínimo. O valor exato para cada caso está na NBR 6118 e no projeto estrutural.

Posso usar concreto C15 em alguma parte da obra?

Sim, mas só em funções não estruturais, como lastro de fundação, regularização e enchimento. C10 e C15 não são aceitos como concreto estrutural. Se a peça tem função estrutural, a classe vem do projeto.

O que significa "concreto 25 MPa"?

Significa concreto da classe C25, com resistência característica à compressão de 25 MPa aos 28 dias: no máximo 5% dos resultados podem ficar abaixo desse valor. Em unidade antiga, equivale a cerca de 255 kgf/cm², o "concreto 250" da obra.

O corpo de prova rompeu abaixo do fck aos 7 dias. O concreto está reprovado?

Não necessariamente. O fck é referência de 28 dias, e a resistência continua subindo depois dos 7, em ritmo que depende do cimento. Quem avalia o resultado é o engenheiro responsável, com base no controle tecnológico previsto. O que conta para aceitação é o critério da NBR 12655.

Fck maior deixa a obra mais cara?

O metro cúbico de classe maior custa mais, mas o custo da estrutura depende do projeto inteiro (seções, fôrma, aço). A escolha do fck continua sendo do projetista.

Antes da próxima concretagem

Confirme no projeto a classe de resistência, a agressividade adotada e a brita compatível, combine o abatimento e verifique a nota de cada caminhão. O que faltar no projeto, pergunte antes de pedir: o fck é decisão de quem assina o cálculo, com ART. Para registrar cada concretagem com fotos, notas e pendências no mesmo projeto, peça seu convite.

Fontes