Design de interiores é onde mais se deixa dinheiro na mesa, e quase sempre pelo mesmo motivo: o designer precifica o projeto de interiores como se fosse projeto de arquitetura, ou pior, como um valor único de metro quadrado. A lógica de preço em interiores é outra. O trabalho não se distribui pela metragem, se concentra na complexidade de cada ambiente e em componentes que só existem aqui, como a especificação de acabamentos e a relação com fornecedores. Precificar interiores bem começa por reconhecer essa diferença e montar a conta que acompanha o trabalho real. Este artigo aprofunda o recorte de interiores do guia completo de precificação para arquitetos e designers de interiores.
Por que interiores não se precifica como arquitetura
No projeto de arquitetura, boa parte do esforço está na concepção e no detalhamento construtivo. Em interiores, o esforço migra para a especificação, a marcenaria, a curadoria de acabamentos e mobiliário, e a coordenação com fornecedores. São naturezas de trabalho diferentes, e aplicar a mesma régua nas duas subestima o que o interiores realmente consome. O designer que cobra interiores com a conta de arquitetura costuma descobrir tarde que o projeto deu muito mais trabalho do que o preço previa.
Precificar por ambiente, não por metragem total
A unidade certa de preço em interiores é o ambiente, não o metro. Cada ambiente tem uma complexidade própria: uma cozinha e um closet concentram marcenaria, pontos de detalhamento e especificação que uma sala de estar ampla não tem, mesmo ocupando menos área. Atribuir horas e complexidade a cada ambiente aproxima o preço do trabalho real muito melhor do que um valor único de metragem, que trata como iguais espaços que dão trabalhos completamente diferentes. É por isso que o metro quadrado engana ainda mais em interiores, algo detalhado em quanto cobrar por metro quadrado.
A especificação que ninguém cobra
Há um trabalho enorme em interiores que raramente entra na conta: a especificação. Pesquisar acabamentos, cotar com fornecedores, comparar opções, montar pranchas de referência, tudo isso consome horas reais que o projeto de interiores exige e que muita proposta simplesmente não cobra, como se fosse cortesia. Não é. Especificação é parte do serviço e precisa estar precificada, seja embutida na conta de horas de cada ambiente, seja como um item próprio. Ignorá-la é trabalhar de graça na parte mais demorada do projeto.
Reserva técnica e comissão, sem se enrolar
A relação com fornecedores abre a discussão da reserva técnica, o desconto que o fornecedor concede ao profissional que especifica e indica seus produtos. Ela é legítima e faz parte do mercado de interiores, mas exige duas regras para não virar problema de confiança com o cliente. A primeira é transparência sobre o modelo de remuneração adotado. A segunda é coerência: a reserva técnica não pode enviesar a indicação para o fornecedor que paga mais em vez do que serve melhor ao projeto.
A decisão central é se a reserva técnica compõe a sua remuneração ou se é repassada ao cliente como desconto. As duas posturas existem, e cada escritório precisa escolher a sua e deixá-la clara na proposta. O que não funciona é depender da reserva técnica para fechar a conta de um projeto que já deveria ser rentável só pelos honorários. Reserva técnica é complemento, nunca a base da margem. A relação com fornecedores, incluindo esse ponto, aparece em gestão de fornecedores em obra.
O imposto que muda a margem real
Como em qualquer precificação, o enquadramento tributário muda quanto do valor cobrado de fato fica com o escritório. MEI, Simples ou outro regime têm alíquotas diferentes, e ignorar o imposto na hora de precificar é descobrir, no fechamento, que a margem era menor do que a planilha mostrava. A alíquota efetiva entra na conta antes de definir o preço, não como ajuste posterior.
Por onde começar
Na próxima proposta de interiores, troque o valor único de metragem por uma conta por ambiente. Liste os ambientes, atribua a cada um as horas realistas de projeto e especificação, e multiplique pelo seu custo hora. Some o imposto, defina sua postura sobre reserva técnica e deixe tudo claro na proposta. O preço que sai dessa conta acompanha o trabalho real, em vez de uma média que sempre penaliza os ambientes mais complexos.
O ponto de partida de tudo isso é o custo real da sua hora. A calculadora de valor da hora entrega esse número, gratuita e sem cadastro. Com ele em mãos, a conta por ambiente deixa de ser estimativa e passa a ser cálculo.




